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19.7.2016

A eficiência criptografada ou a inesperada quietude da ignorância

O Artur Araújo, diretor do Colab em Campinas, compartilhou conosco uma reflexão muito interessante que envolve o filme Birdman. Confira!

por Artur Araújo
Diretor de Comunicação e gerente do Colab na Prefeitura de Campinas (SP)

A quietude nos evoca paz e serenidade, mas, se esse tipo de silêncio se tornasse a resposta a um pedido de ajuda, ele passaria a ser um gesto de desrespeito, de indiferença. Mas o que isso tem a ver com o Colab? E o que criptografia tem a ver com tudo mais? A resposta vai se desenhar nas linhas abaixo e, espero, fará sentido para quem se aventurar nesta leitura.O filme “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” mostra um personagem, Riggan Thomson, interpretado por Michael Keaton, em um momento de angústia: ele quer sair da zona de conforto de fazer filmes de ação, que dão sucesso comercial fácil, para fazer uma peça teatral “densa”, que poderia lhe trazer a respeitabilidade profissional que produções hollywoodianas de super-heróis não costumam dar.

Poster de Birdman

Descobri, nesse um ano de trabalho no Colab (a plataforma foi implantada em junho de 2015 pela Prefeitura de Campinas), um fenômeno que me intrigou e que considero de grande importância compartilhar aqui, com usuários dessa importante ferramenta de gestão pública. Trata-se de uma coisa sem nome que, por meu estilo irônico de ser, terminei por batizar de “eficiência criptografada”.

Mas, antes de fazer considerações técnicas, quero descrever aquele momento mágico que me deu o “clique” da descoberta. Momentos assim são pitorescos e dão um gosto de humanidade à aridez das descobertas científicas ou, no meu caso, técnicas.

Reza, por exemplo, a lenda de que o matemático Arquimedes da antiguidade, ao descobrir a diferença entre peso e massa, saiu que nem um maluco pelas ruas, peladão (ele tinha tido o insight na banheira da casa dele), gritando “Eureka”, que quer dizer “descobri” em grego. Dizem também que o físico Newton “sacou” a lei da gravidade quando uma maçã caiu na cabeça dele... Noves fora o folclore dessas e de outras histórias, a minha também tem um sabor de exotismo e, entendo, que vale a pena contá-la.

Bem, não saí pelado gritando “descobri” nem ganhei um galo na cabeça, mas ficava profundamente incomodado com uma ocorrência que há intermináveis meses não se resolvia na ferramenta. Era uma justa queixa de um cidadão sobre a deterioração de um equipamento público (não é o caso de citar nomes aqui)

.A postagem, reconheço, apresentava uns probleminhas. Apesar de sabermos que a fiscalização era referente a Campinas, o mapa, baseado no gps do aplicativo, apontava uma cidade vizinha como o local do problema e não especificava o ponto da avenida ao qual se referia... mas absolutamente irritado com toda essa “quietude” e o incômodo do cidadão, resolvi ir até o local e percorrer a pé a avenida até encontrar o local apontado pela fotografia. Não demorou muito e me surpreendi com o que vi: achei o local e, melhor que isso, descobri que já estava consertado! E consertado há muito tempo, tanto é que as marcas do uso intenso pelas pessoas já estavam lá...O que isso me revelou?

Uma administração comprometida com a manutenção da cidade, mas também me revelou que setores da gestão municipal, mesmo focados nos necessários cuidados com o estado dos bens públicos, não estavam plenamente integrados à necessária cultura digital que toda a Administração Pública contemporânea precisa estar. Resolver o problema é uma grande coisa, mas não informar ao cidadão é uma falha que expõe desnecessariamente a gestão: nesses casos, fizemos o mais difícil mas esquecemos o “pequeno detalhe” de dar baixa na fiscalização.

Curioso sobre se esse era um caso isolado, resolvi pedir a setores da Prefeitura que atuam constantemente nas ruas que buscassem tentassem verificar se os todos problemas registrados no Colab continuavam de fato sem solução. Fizemos uma verificação aleatória, que não cobriu a totalidade dos 800 casos abertos na ferramenta, mas fizemos uma descoberta surpreendente: 302 casos estavam resolvidos, mas não tinham sido baixados. Isso representa 16,8% da totalidade das 1795 ocorrências baixadas: uma subnotificação identificada, mas que deve ser maior que isso, certamente.

Temos, portanto, uma eficiência em modo de segredo, e criptografia é a arte de fazer as coisas sob sigilo, daí o apelido que cunhei para o fenômeno: “eficiência criptografada”. Esconder o sucesso pode ser uma escolha pessoal, mas é absolutamente indevida quando se trata de administração pública.Se o personagem de Michael Keaton vivia um momento de angústia, a administração pública vive, à sua maneira, esse momento também: ele queria migrar do sucesso comercial para a consagração profissional. Os trabalhadores do setor público precisam migrar de uma cultura não-digital para o governo eletrônico (e-government). A eficiência não basta: é preciso informá-la nos devidos canais.

Em um ano de vivência no Colab, tivemos uma série de sucessos graças a uma equipe apaixonada, a quem rendo as devidas homenagens: crescemos a base de usuários de 908 para praticamente 8 mil (760% de expansão), além de ampliarmos a taxa de resolutividade para 70%, e os avanços verificados apontam futuras melhorias nesse indicador. Temos igualmente avançado no uso da plataforma como um instrumento para aprofundar a democracia participativa. Estamos começando um percurso, mas os avanços nos estimulam a ir além.

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A democracia que conhecemos veio com a República? 

A resposta é não. Mesmo com o fim da escravidão e do império, o voto ainda era direito de poucos e excluía mulheres, analfabetos, mendigos, soldados de baixa patente, menores de  21 anos, padres e índios. 

Mas não pense que a exclusão de uma renda mínima aumentou consideravelmente o número de de eleitores, porque não mudou muito não: apenas 2% da população elegeu o primeiro presidente por eleições diretas, Prudente de Morais.


Os coronéis e os votos de cabresto

Acho que todo mundo já ouviu o termo “coronelismo” ou assistiu filmes e novelas de época nos quais existiam coronéis. O coronel, figura que existiu entre 1889 e 1930, era geralmente um fazendeiro rico que coagia seus “protegidos” a votarem em seu candidato de preferência, prática conhecida como voto de cabresto, já que as pessoas não podiam escolher seus candidatos livremente. 

As fraudes nessa época também eram constantes, já que não havia um órgão imparcial de controle das eleições e votos eram inventados e feitos no nome de outras pessoas - algumas que já tinham até morrido. Cabe lembrar que nesta época os votos ainda não eram secretos.


O voto feminino

Apesar da luta das mulheres no Brasil ter começado no final do século XIX, foi apenas em 1932, com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, que parte delas conquistaram o direito ao voto. 

Para ter direito à votar em 1932, as mulheres precisavam ser casadas e ter a permissão do marido, ou viúvas e solteiras que possuíssem renda própria. O direito ao voto só foi estendido a todas as mulheres em 1934, sendo facultativo a elas, mas obrigatório a todos os homens.

O voto secreto também foi instituído nesta época, porém, Vargas suspendeu as eleições com a implantação do Estado Novo. As eleições só voltaram a ser diretas em 1946, tornando-se o voto obrigatório também para as mulheres.


As eleições foram suspensas na ditadura?

Algumas sim, mas nem todas. 

Durante o período ditatorial (1964-1985), a população não tinha direito ao voto direto para Presidente da República, podendo escolher apenas os representantes do Poder Legislativo (deputados e vereadores), que deviam estar inscritos em um dos dois partidos da época: o Arena (partido dos militares) e o MDB (partido que existe até hoje e reuniu toda a oposição). 

Assim como o presidente, os senadores, governadores e prefeitos também eram eleitos indiretamente, alguns através de indicações dos Colégios Eleitorais.


Enfim, a democracia!

Com o fim da ditadura militar e com o advento da Constituição Federal de 1988, brasileiras e brasileiros puderam voltar a exercer sua cidadania através do voto. No ano de 1989, o Brasil elegeu seu primeiro presidente através do voto direto e universal, Fernando Color de Mello. 


E aí, sabia que o processo para adotarmos o voto universal e igualitário no Brasil tinha sido tão difícil? Muitas pessoas lutaram e morreram para termos esse direito, por isso não deixe de votar e seja consciente ao fazê-lo. 

Apesar de ser o mais popular, o voto não é o único mecanismo de participação social que existe, e como esse é o mês da participação popular no Colab, nós vamos abordar outras formas de participação nos próximos conteúdos. 

Quer aprender mais sobre isso? Então fica ligadinho aqui no blog ;)


 

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