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2.12.2020

E esse hype dos Laboratórios de Inovação em Governo?

Você sabe o que considerar na hora de estruturar um laboratório de inovação em governos? A Isabela Silva da Prefeitura de Niterói conta 5 características que não podem faltar em um lab.

Esse contexto de grandes transformações e demandas sociais crescentes é desafiador para qualquer Organização. Não foi coincidência a inovação entrar na pauta governamental e os “labs”, com seus espaços coloridos de pufes e post-its e suas metodologias em inglês, virarem o “hype” do momento.

Escritórios de gestão de projetos, planejamento estratégico e gestão orientada para resultados já tiveram seus tempos de glória e, bem como os escritórios de projetos, os laboratórios de inovação têm se materializado de diversas formas e com diferentes objetivos e recursos, a depender do contexto específico da organização. 

Revisitando experiências e trocas com colegas que lideram ou fazem parte de iniciativas semelhantes, proponho cinco pressupostos que acredito serem fundamentais para quem experimentará, num futuro próximo, o desafio de estruturar um laboratório de inovação em governo.


1. Um lab não precisa necessariamente envolver tecnologias surpreendentes para inovar

Laboratórios de inovação objetivam facilitar a troca de conhecimento entre diferentes atores, de dentro e de fora do setor público, e materializar capacidades compartilhadas em soluções, produtos e serviços inovadores, que tenham como propósito transformar seus contextos e recortes, melhorar processos internos do governo e/ou serviços que impactam diretamente a qualidade de vida da população local. Contudo, é comum encontrar quem assume que, para inovar, é preciso envolver uma tecnologia surpreendente.

Publicado pela OCDE ainda nos anos 90, o Manual de Oslo desmistifica essa ideia e coloca o foco da inovação no valor que a transformação agrega ao desempenho da Organização. Seja inteligência artificial, redes, nuvens e supercomputadores, robótica, reconhecimento facial, sensores, blockchain, impressão 3D, biologia sintética, realidade aumentada e virtual, drones, não importa, o PROBLEMA, não a tecnologia, deve guiar e moldar a busca pela solução. 

2. Um lab não precisa de espaço próprio e formalização para existir

Um espaço próprio não é pré-condição para a existência de um laboratório – sobretudo num contexto mais propenso a adoção do teletrabalho, como o atual; por outro lado, um espaço físico materializa valores e práticas estimuladas pelos labs

Também não é pré-condição estar na estrutura organizacional, ter equipe e responsabilidades formalizadas, muito embora haja a crença de que a formalização confere legitimidade e sustentabilidade para suas iniciativas, por ser caminho, por exemplo, para ter orçamento e equipe próprios. 

Essas questões, apesar de importantes, não garantem o sucesso ou o legado do laboratório.

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3. A essência de um lab deve ser um olho no PROBLEMA e outro nas PESSOAS

Ao tirar o foco do espaço, da formalização e das tecnologias, sobra mais tempo para o que é verdadeiramente relevante: o PROBLEMA, que guia e molda a solução, e as PESSOAS, que movem os governos, recortam os problemas, propõem e executam as soluções e são beneficiadas por elas, ou seja, pessoas de dentro e de fora dos governos.

Para quem está dentro dos governos, a promoção de eventos mobilizadores, com prêmios, seminários e formações, é uma boa estratégia para engajar e formar alianças estratégicas, criar valor e fortalecer espaços e práticas de inovação. Destaco dois exemplos recentes. A ODS Week, da Prefeitura de Niterói, e o Tsunami de Design Thinking, do Governo do Espírito Santo. 

Mobilizar quem está fora, por outro lado, é mais importante e desafiador: os laboratórios precisam criar formas de engajar a população local como sujeitos ativos da inovação e não apenas grupos estudados por meio de estatísticas e indicadores. Se o valor da inovação não vem de tecnologias surpreendentes, mas dos problemas e das pessoas, a tendência é que as “melhores” contribuições venham justamente da interação com a comunidade que convive diariamente com o problema. 

Nesse sentido, as equipes dos laboratórios precisam se preparar para interagir com a população e envolvê-la desde o recorte do problema até prototipações, testes e validação da solução. É interessante acompanhar a disseminação de iniciativas e metodologias do GNova, da Escola Nacional de Administração Pública, do Governo Federal, e do 011.Lab, da Prefeitura de São Paulo, laboratórios mais maduros e que já desenvolveram iniciativas do tipo.

 4. Um lab deve dar espaço para qualquer um inovar

Essas unidades são criadas, de forma geral, com o discurso de trazer a inovação para a rotina das burocracias, estimular interações, facilitar a identificação de valores e objetivos comuns e buscar soluções para problemas públicos.

Transformar espaços e comportamentos já habituados a estruturas fechadas e hierárquicas, que limitam a criatividade e o empreendedorismo necessários à inovação, demanda escuta ativa das equipes dos laboratórios. 

Todos devem ser estimulados a contribuir, a diversidade de origens e visões deve ser promovida e celebrada. Independente de raça, gênero, religião, do cargo que ocupa, da formação, ou se são burocratas ou cidadãos, todos são igualmente importantes pois trazem sua conexão com o problema.

E é necessário um cuidado especial com a narrativa adotada e a forma como interlocutores percebem o laboratório desde a sua concepção, para não caírem na armadilha de se colocar como único espaço em que a inovação acontece. Se insular é contraproducente para quem é parte de uma estratégia mais ampla de construção de cultura e capacidade de inovação no governo.

5. Um lab é mais do que tendência hype, deve ser uma estratégia de como resolver problemas públicos

Uma das reflexões mais importantes, e que deve ser revisitada durante todo o ciclo de vida de um laboratório, é seu objetivo, sua razão de ser no contexto específico do governo em que é criado. 

A partir do alinhamento entre dirigentes, lideranças e equipes dos laboratórios sobre os motivos de sua existência é que outras decisões serão tomadas como, por exemplo, que atores envolver, que parcerias articular, que iniciativas priorizar e como desenvolvê-las para solucionar os problemas públicos priorizados.

Por isso, é fundamental que o laboratório esteja conectado à estratégica do governo. Que modelo de cidade pretende-se construir? Sem uma visão compartilhada do que é prioritário para a população local, o laboratório poderá se perder em suas estregas e ter sua legitimidade questionada.

 

A partir desses pressupostos, acredito no sucesso da estratégia de criar laboratórios de inovação para transformar governos e melhorar a qualidade e sustentabilidade dos serviços públicos, com a advertência de que suas lideranças e equipes permaneçam atentas às PESSOAS e aos PROBLEMAS, caso contrário, podem acabar no “hype dos labs”, descoladas das demandas e dos contextos que buscam mudar, isoladas dentro dos governos, escravas de metodologias e tecnologias e, pior, perpetuando problemas e estruturas que deveriam questionar e transformar.

Isabela de Jesus da Silva

Sobre o autor

Gestora Pública do Estado do Rio de Janeiro desde 2014, graduada em Relações Internacionais pela PUC-Rio e especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental pela UFRJ. Se dedica atualmente às iniciativas promovidas pela Escola de Governo e Gestão de Niterói, da qual é Diretora, e ao MBA em Desenvolvimento Estratégico de Lideranças, na FGV-RJ. Acredita que, para que a inovação seja uma capacidade central dos governos, o passo mais importante será na direção de uma burocracia mais representativa e lideranças mais diversas.