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15.6.2020

Interseccionalidade: Duas (ou mais) vezes discriminação

Ser vítima de preconceito por um motivo já é uma coisa horrível. Agora imagina ser vítima de discriminação por duas características? Falaremos sobre isso neste artigo.

Você já sabe o que é racismo estrutural. Você também já sabe o que é sexismo. Você conhece parte da história do feminismo.

Agora, imagine a junção disso tudo: a discriminação por gênero e raça. Ou a discriminação por gênero e classe social. Ou, ainda, a discriminação por raça e crença. Ou ser discriminado por tudo isso junto.

É sobre isso que eu vou te explicar hoje.

Conceito

O conceito de Interseccionalidade foi criado pela professora estadunidense Kimberlé Williams Crenshaw, cientista nas áreas de raça e gênero.
Ela o formulou após conhecer a história de uma mulher americana que não conseguiu processar uma empresa por dois tipos de discriminação: ser mulher e negra.

Isso porque o juiz constatou que a empresa contratava sim negros e mulheres. Ele só não se atentou para uma coisa: os negros eram todos homens e as mulheres eram todas brancas. Não existiam mulheres negras trabalhando lá.

A autora definiu interseccionalidade como “formas de capturar as consequências da interação entre duas ou mais formas de subordinação: sexismo, racismo, patriarcalismo.”

Crenshaw começou a investigar e percebeu que alguns grupos de pessoas eram discriminados por dois motivos diferentes e não possuíam nenhum tipo de reparação ou política pública para ampará-las.

Isso se dá pela forma como nossa sociedade foi estruturada. Vivemos em um mundo governado pelo patriarcado branco, no qual as mulheres são vistas como inferiores aos homens e os negros são discriminados pela cor de sua pele. 

A questão de classe também é levada em conta, assim como a nacionalidade, a religião e a orientação sexual ainda são utilizadas para discriminar as pessoas.

Quando juntamos dois ou mais fatores temos uma intersecção de discriminação, que cria desafios adicionais para que as pessoas tenham acesso aos seus direitos.


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Interseccionalidade e mulheres negras

Como já explicado, Crenshaw desenvolveu seu conceito de interseccionalidade baseado na situação de mulheres afro americanas. Por mais que o termo possa abranger outros tipos de pessoas, o grupo de mulheres negras é que o mais sofre discriminação nos moldes atuais da sociedade.

Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres ganham 20,5% a menos que os homens no Brasil, mesmo exercendo as mesmas funções. Ainda assim, mulheres brancas ganham mais do que homens negros.

Quando avaliamos a situação das mulheres negras, o cenário é ainda mais assustador. O estudo apontou que elas ganham menos da metade do salário de um homem branco (44,4%).

Infelizmente, as desvantagens não param na vida profissional e financeira. As mulheres negras também sofrem com falta de representatividade na política e são vítimas constantes da violência. 

Em 10 anos, o assassinato de mulheres negras aumentou 54,2%, enquanto o de mulheres brancas caiu 9,8%. Para se ter ideia, uma mulher negra tem três vezes mais chance de ser vítima de feminicídio do que uma mulher branca.

Quando levamos em consideração o sistema carcerário feminino, o cenário continua caótico. Um levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) em 2015 mostrou que 62% das mulheres em reclusão são negras, enquanto 37% é branca e 1% pertence a outras etnias. Mais da metade das presidiárias foram detidas por tráfico de drogas e ocupavam papéis de baixa hierarquia no esquema de entorpecentes. 

Quando falamos de ciência e da vida acadêmica, os números também são alarmantes. Menos de 3% do corpo docente de poś-graduação no Brasil é composto por doutoras negras.

Após todos estes dados, você precisa concordar comigo em uma coisa: é urgente mudarmos o sistema e os princípios de nossa sociedade. Apesar de termos uma Lei Federal que considera o racismo crime, somente ela não é suficiente para diminuir a desigualdade social e apoiar os grupos mais vulneráveis da sociedade.

Muito temos avançado, mas as mulheres e os negros ainda são oprimidos em uma sociedade machista e racista. As mulheres negras estão no meio desta intersecção e necessitam de todo o apoio possível, tanto do Governo quanto de nós mesmos, sociedade civil.

Por fim, recomendo dois ótimos filmes que tratam desta temática e retratam o trabalho e o papel de mulheres negras nos EUA no século XX. 

Histórias Cruzadas conta a vida de empregadas negras que cuidavam de crianças brancas em uma sociedade extremamente racista, na qual negros e brancos não podiam frequentar os mesmos lugares.    

Estrelas Além do Tempo é baseado em fatos reais e conta a história de três cientistas negras da NASA que revolucionaram o mundo. O filme mostra as dificuldades de ser negra e mulher dentro de uma das maiores agências do governo estadunidense durante a corrida espacial. 


Ana Mendonça

Sobre o autor

Ana Mendonça é jornalista e gestora de políticas públicas. Defensora de uma linguagem simples na administração pública, acredita no poder do cidadão e no protagonismo do servidor.